quarta-feira, 16 de setembro de 2009
PROFISSÃO: "JORNALISTA"
Deformações jornalísticas
Nos esporádicos eventos que exigem apresentações (entrevistas, por exemplo), é comum haver referências à minha atuação como “jornalista”. Dentre todas as alcunhas imerecidas, esta provoca mais desconforto, porque não tenho formação na área, jamais pretendi exercer a atividade e tampouco acredito exercê-la. Tento desfazer o equívoco, mas os interlocutores argumentam que minhas colaborações regulares para veículos informativos me inserem na seleta categoria.
Discordo, embora lisonjeado. Furtar um grau superior reconhecido oficialmente soaria desonesto com o distinto público. Também alimento a ilusão (ultrapassada e romântica, admito) de que jornalistas profissionais possuem compromisso com a objetividade, a veracidade e o interesse coletivo. Meus textos, ao contrário, são demasiado opinativos e diletantes para tamanhas pretensões.
Abdicar da qualificação não significa, entretanto, aceitar seu viés legitimador. Ninguém precisa de diplomas para coletar informações, cultivar análises e reproduzir raciocínios legíveis. Canudos de papel não materializam vocações ou talentos, em qualquer afazer criativo.
Na verdade, considerando a qualidade média dos serviços em questão, a própria formação universitária precisa ser repensada com urgência. Uma preocupante parcela dos jovens jornalistas brasileiros carece de rudimentos teóricos que deveriam ser exigidos de qualquer cidadão, ainda mais de alguém que pretende “formar opiniões”. Supondo-os diplomados, e quase todos são, chegamos a nos perguntar como conseguiram completar o colegial e passar num vestibular, antes mesmo da formatura.
Não me refiro à imprensa de província (amiúde injustiçada), nem às crônicas esportivas e policiais, recheadas de cacoetes divertidos. Até respeitados veículos de abrangência nacional sucumbem a escrutínios rigorosos. Os erros de gramática e concordância aparecem com lamentável freqüência. Amiúde surge o clássico “dar a luz a” e uma constelação de cacofonias no estilo “nunca ganha”. E os lugares-comuns se transformaram em dialeto particular, subproduto inócuo do discurso publicitário.
Há também demonstrações constrangedoras de ignorância acerca dos assuntos abordados. As besteiras com vocabulário jurídico e científico dariam livros. Em recente matéria sobre os descalabros do Judiciário, alguém incluiu o Tribunal de Contas, órgão autônomo, auxiliar do Legislativo. Acabo de ouvir uma repórter mencionando o Ministério “do” Público, na mesma rádio onde outra relatara os casos de gripe suína no Estado americano de “Órrio”. Claro, ninguém precisa ser poliglota, mas um “Bob Dáilan” ou um “Reimbáude” já são demais em qualquer contexto, não apenas cultural.
Talvez devêssemos tolerar deslizes textuais ou de conteúdo específico, tendo em vista as vicissitudes do ofício. E toda generalização seria tola, especialmente num universo tão amplo quanto diversificado. Mas algumas ponderações críticas se fazem necessárias, porque parte da categoria mobiliza-se para defender a exigência do diploma justamente como garantia de qualidade e competência. Corporativismos à parte, será que as faculdades existentes atingem esses nobres objetivos?
Um sério problema da formação acadêmica jornalística é que sua inviável pretensão à universalidade resulta em amplo superficialismo. Não há como especializar o formando em todos os assuntos de interesse público. Mesmo em espaços “apenas” informativos, certas pautas demandam exatidão e profundidade inacessíveis a curiosos ocasionais. Privar o público de esclarecimentos técnicos pode acarretar prejuízos irreversíveis. A imprensa não é nem pode ser feita apenas por jornalistas.
Não que a decisão do STF traga novidades às relações laborais. Sob arengas liberalizantes ou legalistas de patrões e empregados, dissemina-se a adoção consensual de estratégias para driblar a legislação trabalhista. A tendência fatalmente inviabilizará as regulamentações profissionais. Aliás, funcionários que se transformam em Pessoas Jurídicas não podem reclamar de precariedade, amadorismo ou perda de direitos.
E as empresas continuarão preferindo candidatos diplomados. Além de conhecer jargões e técnicas básicos, eles disputam chances num mercado de trabalho já suficientemente competitivo, que pressiona os iniciantes a sufocar abstrações éticas para satisfazer os desmandos dos superiores. Assim estará garantido o exército de pobres diabos que se acotovelarão para inventar uma futura Escola Base, outro casal Nardoni, os novos pugilistas cubanos.
Se há qualquer ameaça ao futuro do jornalismo brasileiro, os interessados podem procurá-la numa crise inédita de credibilidade, nascida nas próprias redações e alimentada com a cumplicidade de todos os envolvidos, principalmente os tais diplomados. Mas será impossível compreender a decadência roçando apenas sintomas aparentes e momentâneos, sem dissecar sua natureza essencialmente política.
Guilherme Scalzilli, historiador e escritor. Autor do romance “Crisálida” (editora Casa Amarela).
http://www.guilhermescalzilli.blogspot.com
As opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não estão necessariamente de acordo com os parâmetros editoriais da Caros Amigos.
01 de julho de 2009 - Por Guilherme Scalzilli
http://carosamigos.terra.com.br/
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Agora jornalismo é para quem quiser, graças a Deus
Ok, sou mais um a escrever sobre o fim da exigência do diploma para jornalistas. Relutei em fazer este artigo, mas a indignação dos profissionais me toca. Estão putíssimos, é fato. Meus alunos, preocupados. Eu adorei. Agora, jornalismo é para quem quer fazer jornalismo, não para quem teve a chance econômica de adquirir o diploma que permite exercer a profissão.
Sem dúvida, as razões de Gilmar Mendes e seus pares são equivocadas – eles pensam que o jornalismo não pode prejudicar a sociedade, opinião realmente inacreditável. Contudo, assusto igualmente com os argumentos dos jornalistas, especialmente um: o diploma garante, no mínimo subsidia, a qualidade do exercício profissional. Será preciso lembrar quantos casos para demonstrar o contrário? Escola Base? A edição do debate Lula-Collor? A sanha de abutres na morte de Isabella Nardoni? Ou o assassinato de “garota Eloá”, promovido por diplomados?
Aliás, menos: é só ler jornais, revistas; acompanhar rádio e televisão; ler os famigerados releases das assessorias de imprensa. Em geral, o jornalismo praticado no Brasil é tecnicamente medíocre, a repetição de si mesmo, quem viu um viu todos. Não falo de ética, compromisso social, não sonho tanto. Penso na proclamação do textozinho padrão, o verbo “disse” após a citação, a malandragem da isenção, da imparcialidade, a incapacidade narrativa, a capacidade de aliciar sem ser sexy. O jornalismo brasileiro ainda não decidiu se pronuncia “risco de vida” ou “risco de morte” e chama o PCC de “quadrilha que age dentro e fora dos presídios”, evidenciando-os com a expressão pomposa que pretendia ocultá-los.
Os jornalistas também esperneiam pela possibilidade de perderem conquistas históricas. Ora, por séculos existimos sem diploma, coisa que imperou no Brasil por somente 40 anos. Não estou negando os nacos arrancados a duras penas das montanhas de dinheiro desse bando de Tio Patinhas, empresários da comunicação. Porém grandes conquistas dos trabalhadores em jornalismo são anteriores à ditadura e à exigência do diploma, tipo a instituição do primeiro piso salarial e da jornada de cinco horas, resultado da greve de 1961, organizada pelo sindicato dos jornalistas de São Paulo - mas quando foi mesmo a última greve dos jornalistas, a mobilização que deu notícia?
Fico me perguntando sobre a nossa situação. Pesquisas demonstram que a profissão figura entre as mais insalubres e, após quarenta anos da “categoria organizada” no Brasil, somos explorados ao extremo, recebemos miséria, trabalhamos pra cacete.
Sabe qual o salário de um jornalista na capital paulista? O piso é de R$ 1.738,25 para quem trabalha cinco horas (duvido que exista um) em jornal ou revista. No interior, rádios e televisões pagam R$ 861,85. Imagino que vários cozinheiros ganhem melhor.
Sobre os presumíveis direitos dos jornalistas, risíveis. Inúmeras redações funcionam com legiões de diplomados “contratados” temporariamente. A Editora Abril, a maior do ramo, ajusta freelancers por exatos dois meses e 29 dias, para não caracterizar vínculo empregatício aos três meses. Surgiu “no meio jornalístico” a expressão de todo escrota: “frila-fixo”. Designa o jornalista temporário que trabalha direto e reto na mesma empresa, às vezes anos, sem nenhum direito.
Para os que defendem seus canudos, duas perguntas: por que vocês aceitaram e aceitam ter aulas, talvez a maioria delas, com professores que não são nem nunca foram jornalistas, inclusive em disciplinas específicas? Não seria mais, digamos assim, lógico, receber formação de gente da área, já que, como diz a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), o jornalismo é “uma atividade profissional especializada, que exige sólidos conhecimentos teóricos e técnicos, além de formação humana e ética”?
Há ainda o argumento da “contratação de qualquer um” pelas empresas de comunicação. Percorri os telejornais e desde a decisão do Supremo Tribunal Federal não assisti a cena clássica, filmada do helicóptero, a fila de candidatos a emprego dobrando a esquina, hordas de bárbaros aspirantes ao jornalismo prestes a invadir as redações, suas pastinhas nervosas no sovaco, o currículo dentro.
Não haverá “invasão”, palavra que amestrados diplomados usam sempre para denegrir a legítima e última solução da gente mais explorada deste país. Amestrados: são conhecidos “no meio jornalístico” pela acrobática alcunha de “focas”. Com o fim da reserva de mercado, lo siento, os penetras com vocação e preparo, sim, concorrerão com nosotros.
Dando aulas em cursinhos populares, inclusive dentro da Universidade de São Paulo (USP), cansei de ouvir lamentações de jovens pobres que sonhavam um dia ser jornalistas, mas não podiam, não poderiam nunca concorrer à vaga na universidade pública, nem financiar a particular. Treta, né? Quanto vale um sonho impedido?
Por fim, relaxem, os cursos de jornalismo sobreviverão, e nem sei se precisarão justificar sua existência. Em geral eles prestam enorme serviço aos patrões formatando o futuro profissional, aulinhas de lide durante meses, exercícios práticos que achatam a criatividade, a sagacidade, o tesão dos alunos com asneiras do tipo “não use adjetivo”, “seja objetivo”, “seja imparcial”. Não duvido nada que permaneçam as picaretagens típicas de sala de aula, aqueles mestres que vivem de um difuso, duvidoso e remoto passado profissional, ou os chatos capazes de criar esta impossibilidade ambiental: o clima de marasmo tenso.
Continuidades à parte, torço agora pelo próximo passo evolutivo: a extinção da obrigatoriedade do diploma de Direito. É praticamente impossível, eu sei, inclusive a Ordem dos Advogados do Brasil apóia a exigência para jornalismo, imagina se mexerão no deles. Mas não custa nada sonhar com o dia em que velhinhos não precisarão mais recorrer a um advogado para pedir revisão de aposentadoria, por exemplo.
Marcos Zibordi é jornalista.
As opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não estão necessariamente de acordo com os parâmetros editoriais da Caros Amigos.
24 de junho de 2009 - Por Marcos Zibordi
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DIPLOMA DE JORNALISTA: O BURACO É MAIS EMBAIXO
Por Wagner Nabuco
“...sambista não tem valor nessa terra de doutor e seu doutor o meu pai tinha razão”, canta Paulinho da Viola, no samba intitulado “14 anos”. Acrescento ao sambistas sem valor os pedreiros, carpinteiros, maquinistas, estivadores, lixeiros, lavradores, camponeses, cortadores de cana, peão de fazenda e de obra, barrageiros, bóias frias, ascensoristas, cobradores, motoristas, carregadores, domésticas, faxineiras e pescadores. A lista é imensa. Esses milhões, a ninguenzada, como dizia o saudoso Darcy Ribeiro, que construíram e constroem o Brasil, têm um traço em comum: exercem profissões de trabalho manual. E é aqui que a cousa pega. Nesse nosso país de doutores, trabalho manual, braçal, é quase indigno. Vale pouco e ganha pouco, herança terrível de 400 anos de escravidão, que pesa sobre nossos ombros.
Vejam que exemplo histórico: José Thomaz Nabuco, filho do intelectual e abolicionista Joaquim Nabuco, no livro “Um médico do Brasil Colônia”, editora Nova Fronteira, 1986, às tantas narra que nosso antepassado comum, Manoel Fernandez Nabuco, chegado à Bahia em 1763, vindo da Vila de Escalhão, Portugal, era médico, naquela época chamado cirurgião, e para ter seu diploma reconhecido pelo cirurgião mor da corte e a licença de “el rei” para exercer sua profissão precisou provar que seus pais e avós paternos e maternos viviam de “suas fazendas”, ou seja: das suas rendas, o que significava não terem exercido trabalhos manuais ou braçais.
Que carga pesada herdamos. Para limpar essa marca ignóbil, que vem de muito longe, ter um diploma universitário é uma das formas mais buscadas e aceitas. Então dá-lhe abertura de faculdades de fachada, arapucas pra tomar dinheiro basicamente dos filhos dessa “ninguenzada” que listei antes. O cidadão, a cidadã, vai continuar feirante, mecânico, manicure, vendedora, auxiliar administrativo, mas poderá, com orgulho, dizer “eu tenho um diploma da faculdade”, ou melhor e mais bonito, “eu sou doutor”.
Todos os bacharéis e licenciados formados no ensino superior são doutores sem ter feito mestrado e muito menos doutorado. São os advogados, médicos, dentistas, engenheiros, procuradores, juízes, deputados... até os delegados de polícia. Os bacharéis que são doutores.
Como titulei, o buraco é mais embaixo. O que precisamos, de fato, é tratar dignamente, principalmente remunerar dignamente todo esse povo, esses milhões que fazem nosso país. Se assim fizéssemos, não haveria essa pressão violenta para conseguir o diploma universitário. Uma boa formação, um bom ensino de segundo grau, um bom salário bastariam para uma vida digna e cidadã.
A profissão de jornalista é muito importante, fundamental mesmo para se construir sociedades democráticas, plurais, mais justas e igualitárias. Seu reconhecimento e regulamentação não deve se limitar à obrigatoriedade do diploma universitário. Deve ser bem remunerada, protegida nos seus direitos e benefícios e admirada pela qualidade da sua produção, independência, senso crítico e ético e não apenas por um diploma que, no mais das vezes, veio de faculdades nascidas para aplacar a mancha horrenda de não sermos doutores.
Com essa visão, me pergunto por que precisamos de advogados, que obrigatoriamente precisam de diplomas de faculdades de direito, geralmente de baixíssima qualidade. Deveríamos também poder defender nossos direitos de cidadãos frente a qualquer arbitrariedade, seja da esfera pública ou da privada, com ou sem advogados, mas sim protegidos por uma vivência democrática, a constituição federal e um conjunto de leis conhecidas e respeitadas. Assim fosse e esse imenso cartório, essa reservona de mercado seria menor e menos nociva. Nada contra os advogados, penso que isso vale para muitas outras profissões que poderão ser exercidas sem a obrigatoriedade do diploma universitário específico. Claro que a sofisticação e diversidade das atividades econômicas exigem formação especializada, inclusive bons advogados. Mas insisto: não é apenas a obrigatoriedade do diploma que a possibilita.
Essas reservonas não interessam aos jornalistas, às suas lutas e reconhecimento. Penso que eles precisam trazer para esse nobre ofício um número cada vez maior de gentes com talento, com ou sem o diploma, inclusive os milhares de jovens que hoje lutam para dar voz à suas comunidades através de rádios comunitárias, jornais, revistas, blogs e outros variados meios por todo esse nosso Brasil.
Wagner Nabuco é historiador, diretor-geral da Caros Amigos, sem diploma de administrador de empresas.
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23 de junho de 2009
As linhas tortas do diploma de jornalismo
O Supremo Tribunal Federal decidiu que o exercício profissional do jornalismo não é mais exclusividade dos diplomados nos cursos de Comunicação Social – Jornalismo. E agora? Agora é preciso que se coloque a decisão e seus efeitos nos seus devidos lugares. Por Cristina Charão
A tese que sustenta a decisão do Supremo, de que a regulamentação da profissão de jornalista tal como estava colidia com o conceito de liberdade de expressão e com os tratados internacionais a este respeito, é lógica. Deixemos por um instante de pensar no cenário das grandes redações de poderosos grupos de mídia e visualizemos a seguinte situação: na fictícia cidade de Cacimbinhas de Cima da Serra, a associação de moradores se dá conta que a localidade não conta com nenhum veículo de comunicação que produza noticiário de acordo com as reais necessidades da população local. Assim sendo, promovem uma quermesse, reúnem o dinheiro necessário e passam a produzir um jornal, folha A4, frente e verso. Mas não há entre os associados ou em toda a cidade nenhum jornalista diplomado. A letra fria da lei que regulamentava a profissão de jornalista diria que todos os três moradores de Cacimbinhas de Cima da Serra que semanalmente escrevem para o jornal estariam exercendo ilegalmente a profissão e a associação de moradores seria multada por isso. Multa esta que, para ser paga, exigiria gastar os últimos recursos da quermesse e, assim, adeus à Folha de Cacimbinhas.
Pena é saber que não foi necessariamente esta a situação imaginada pelos ministros do STF quando proclamaram seus votos a favor da não-obrigatoriedade. A pressão dos grupos de mídia nacionais, cujo jornalismo é a grande máquina de produção da dita “opinião pública”, foi fundamental para a derrubada da regulamentação da profissão de jornalista. O velho ditado do escrever certo por linhas tortas se aplica à questão e impõe a tarefa de percorrer estas vias tortuosas se quisermos que a história que segue tenha como pauta o direito à comunicação.
Representantes da Associação Nacional de Jornais desfiaram argumentos a favor da liberdade de expressão quase nos fazendo acreditar que, agora sim, dona Maria terá sua opinião sobre as cotas nas universidades publicada na Folha de S. Paulo e seu Zé poderá se postar na portaria da Rede Globo com um cartaz “Filma eu, William Bonner” e, pronto, estará no Jornal Nacional. É preciso, portanto, que fique claro: a decisão do STF não muda a lógica com que os grandes grupos produzem seu jornalismo. Poderão, talvez, mudar algumas peças nas redações. Poderão economizar, num futuro próximo, com a contratação mais precária de funcionários, caso o sindicalismo insista na tática do avestruz-bacharel, enfiando a cabeça em uma pilha de diplomas, e não enfrente – finalmente! – o desafio de criar uma nova regulamentação profissional que proteja os trabalhadores e não a máquina da burocracia universitário-sindical.
A decisão do STF só surtirá efeitos democratizantes se for acompanhada de dois tipos de medidas. É preciso qualificar os cursos de Comunicação para que sejam capazes de dar uma perspectiva mais crítica ao exercício do jornalismo, seja pela sua produção acadêmica, seja pela formação de quadros profissionais que se imponham nas redações pela sua capacidade diferenciada. E é preciso, especialmente, medidas que imponham uma nova lógica ao sistema de comunicações e permitam às Folhas de Cacimbinhas, agora livres do impeditivo legalista do regulamento profissional, existirem de fato. A certeza arrogante de que estas medidas jamais serão tomadas é que faz com que os empresários da comunicação defendam a decisão, afinal, democratizante do STF.
Fatos que justifiquem a arrogância do empresariado não faltam. Para ficar apenas nos exemplos do Poder Judiciário, o próprio STF ainda não julgou Ação de Inconstitucionalidade contra o decreto que criou o Sistema Brasileiro de TV Digital, questionado especialmente por dar – sem observar os trâmites constitucionais – mais espaço para transmissão de sinais aos atuais concessionários, diminuindo também a possibilidade da entrada de novos atores no cenário da TV brasileira. Tampouco a Justiça tem sido célere em julgar casos de violações dos direitos humanos por diferentes mídias ou aqueles que questionam diretamente a concentração da propriedade de veículos de comunicação, como o processo contra o Grupo RBS em Santa Catarina.
O trabalho dos que defendem a não-obrigatoriedade do diploma específico para o exercício profissional do jornalismo sem a hipocrisia dos empresários começa agora.
Cristina Charão é jornalista
As opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não estão necessariamente de acordo com os parâmetros editoriais da Caros Amigos.
Originalmente postado no site Observatório do Direito à Comunicação
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18 de junho de 2009
Fim do diploma para Jornalista
STF atende ao pedido das grandes empresas
Por Hamilton Octavio de Souza
O Supremo Tribunal Federal decidiu retirar da regulamentação da profissão de JORNALISTA a exigência de diploma específico de curso superior de JORNALISMO. Essa exigência existe desde a regulamentação de 1969. Passou a vigorar em 1971. Nunca foi limitação para a liberdade de expressão e nunca impediu ninguém de colaborar e participar das atividades jornalísticas e dos meios de comunicação. Os jornais e as revistas estão cheios de articulistas não-jornalistas. É só ver os colaboradores da página 2 da Folha de S. Paulo: Antonio Ermírio de Moraes, Delfim Netto, Emílio Odebrecht, Marina Silva, Cesar Maia etc...
A exigência tem servido para definir o perfil da categoria profissional, quem vive do trabalho jornalístico, quem tem no jornalismo a sua atividade principal, quem tem vínculo empregatício como jornalistas. Para essa categoria, a exigência do diploma foi uma conquista importante - na medida em que estabeleceu área específica de estudo, reflexão e pesquisa, aperfeiçoamento técnico e comprometimento ético e político. Contribuiu para elevar o nível intelectual e cultural da categoria - de maneira geral, apesar dos cursos ruins e picaretas (como em todas as áreas do ensino superior público e privado).
Há anos que as empresas jornalísticas fazem campanha contra a exigência do diploma, basicamente pelos seguintes motivos: 1) Ficam liberadas para contratar quem bem entenderem no grande exército de reserva (desemprego de mais de 30% entre os jovens de 18 e 25 anos); 2) Aumentam a pressão para rebaixar ainda mais os salários, sem o menor respeito aos pisos salariais conquistados pela categoria profissional; 3) Podem ampliar o esquema de super-exploração dos trabalhadores do jornalismo (sem vínculo, PJ, frila fixo, produção para vários veículos, não pagamento de direitos autorais etc), enfim, podem fazer no setor da comunicação o que fazem com a terceirização da mão de obra nos call center da vida; 4) Podem aumentar o controle ideológico de seus trabalhadores jornalistas sem conflitos éticos e compromissos sociais (os jornalistas, queiram ou não, têm uma noção mais próxima do jornalismo como serviço de interesse público - do que interesse privado dos grupos econômicos).
Portanto, a derrubada do diploma é antes de mais nada uma vitória do capital. O que fazer?
O jornalismo brasileiro tem mais de 200 anos de história. A categoria profissional se reconhece como tal há mais de 80 anos. O sindicato dos jornalistas de São Paulo foi fundado em 1937. Antes da exigência do diploma, a categoria já havia conquistado a jornada de trabalho (5 horas + 2 horas extras = 7 horas), o piso salarial (que já foi de seis salários mínimos) e outros benefícios profissionais. Isso foi feito com luta. A defesa das conquistas da categoria depende exclusivamente da mobilização, organização e combatividade da própria categoria. Nada mais do que isso.
A exigência do diploma durou 40 anos. Contribuiu para consolidar o profissionalismo da categoria, mas também foi um grande estímulo ao aparecimento dos cursos de picaretagem - as verdadeiras arapucas do ensino superior - que se aproveitaram dessa "reserva de mercado de trabalho" para ganhar dinheiro (lucro) e inundar a profissão de pessoas despreparadas e não comprometidas com o papel transformador do jornalismo.
A não exigência do diploma coloca um novo desafio para os cursos de Jornalismo: conquistar o seu próprio espaço na sociedade e a sua própria inserção no mercado de trabalho profissional. As boas escolas, os bons cursos continuarão como referência do JORNALISMO e continuarão formando bons jornalistas para a sociedade brasileira.
Ainda é preciso ver qual será a exigência para o registro da profissão, se haverá ou não registro profissional. Mas, de qualquer maneira, mais do que nunca, agora, os cursos de jornalismo precisam deixar claro a que vieram, quais são as suas virtudes na formação de jornalistas, quais são as suas visões de mundo e do jornalismo que a sociedade brasileira realmente necessita.
O debate está aberto. Não dá para fugir dele...
Hamilton Octavio de Souza.
Jornalista e Professor da PUC-SP.
As opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não estão necessariamente de acordo com os parâmetros editoriais da Caros Amigos.
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Nos esporádicos eventos que exigem apresentações (entrevistas, por exemplo), é comum haver referências à minha atuação como “jornalista”. Dentre todas as alcunhas imerecidas, esta provoca mais desconforto, porque não tenho formação na área, jamais pretendi exercer a atividade e tampouco acredito exercê-la. Tento desfazer o equívoco, mas os interlocutores argumentam que minhas colaborações regulares para veículos informativos me inserem na seleta categoria.
Discordo, embora lisonjeado. Furtar um grau superior reconhecido oficialmente soaria desonesto com o distinto público. Também alimento a ilusão (ultrapassada e romântica, admito) de que jornalistas profissionais possuem compromisso com a objetividade, a veracidade e o interesse coletivo. Meus textos, ao contrário, são demasiado opinativos e diletantes para tamanhas pretensões.
Abdicar da qualificação não significa, entretanto, aceitar seu viés legitimador. Ninguém precisa de diplomas para coletar informações, cultivar análises e reproduzir raciocínios legíveis. Canudos de papel não materializam vocações ou talentos, em qualquer afazer criativo.
Na verdade, considerando a qualidade média dos serviços em questão, a própria formação universitária precisa ser repensada com urgência. Uma preocupante parcela dos jovens jornalistas brasileiros carece de rudimentos teóricos que deveriam ser exigidos de qualquer cidadão, ainda mais de alguém que pretende “formar opiniões”. Supondo-os diplomados, e quase todos são, chegamos a nos perguntar como conseguiram completar o colegial e passar num vestibular, antes mesmo da formatura.
Não me refiro à imprensa de província (amiúde injustiçada), nem às crônicas esportivas e policiais, recheadas de cacoetes divertidos. Até respeitados veículos de abrangência nacional sucumbem a escrutínios rigorosos. Os erros de gramática e concordância aparecem com lamentável freqüência. Amiúde surge o clássico “dar a luz a” e uma constelação de cacofonias no estilo “nunca ganha”. E os lugares-comuns se transformaram em dialeto particular, subproduto inócuo do discurso publicitário.
Há também demonstrações constrangedoras de ignorância acerca dos assuntos abordados. As besteiras com vocabulário jurídico e científico dariam livros. Em recente matéria sobre os descalabros do Judiciário, alguém incluiu o Tribunal de Contas, órgão autônomo, auxiliar do Legislativo. Acabo de ouvir uma repórter mencionando o Ministério “do” Público, na mesma rádio onde outra relatara os casos de gripe suína no Estado americano de “Órrio”. Claro, ninguém precisa ser poliglota, mas um “Bob Dáilan” ou um “Reimbáude” já são demais em qualquer contexto, não apenas cultural.
Talvez devêssemos tolerar deslizes textuais ou de conteúdo específico, tendo em vista as vicissitudes do ofício. E toda generalização seria tola, especialmente num universo tão amplo quanto diversificado. Mas algumas ponderações críticas se fazem necessárias, porque parte da categoria mobiliza-se para defender a exigência do diploma justamente como garantia de qualidade e competência. Corporativismos à parte, será que as faculdades existentes atingem esses nobres objetivos?
Um sério problema da formação acadêmica jornalística é que sua inviável pretensão à universalidade resulta em amplo superficialismo. Não há como especializar o formando em todos os assuntos de interesse público. Mesmo em espaços “apenas” informativos, certas pautas demandam exatidão e profundidade inacessíveis a curiosos ocasionais. Privar o público de esclarecimentos técnicos pode acarretar prejuízos irreversíveis. A imprensa não é nem pode ser feita apenas por jornalistas.
Não que a decisão do STF traga novidades às relações laborais. Sob arengas liberalizantes ou legalistas de patrões e empregados, dissemina-se a adoção consensual de estratégias para driblar a legislação trabalhista. A tendência fatalmente inviabilizará as regulamentações profissionais. Aliás, funcionários que se transformam em Pessoas Jurídicas não podem reclamar de precariedade, amadorismo ou perda de direitos.
E as empresas continuarão preferindo candidatos diplomados. Além de conhecer jargões e técnicas básicos, eles disputam chances num mercado de trabalho já suficientemente competitivo, que pressiona os iniciantes a sufocar abstrações éticas para satisfazer os desmandos dos superiores. Assim estará garantido o exército de pobres diabos que se acotovelarão para inventar uma futura Escola Base, outro casal Nardoni, os novos pugilistas cubanos.
Se há qualquer ameaça ao futuro do jornalismo brasileiro, os interessados podem procurá-la numa crise inédita de credibilidade, nascida nas próprias redações e alimentada com a cumplicidade de todos os envolvidos, principalmente os tais diplomados. Mas será impossível compreender a decadência roçando apenas sintomas aparentes e momentâneos, sem dissecar sua natureza essencialmente política.
Guilherme Scalzilli, historiador e escritor. Autor do romance “Crisálida” (editora Casa Amarela).
http://www.guilhermescalzilli.blogspot.com
As opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não estão necessariamente de acordo com os parâmetros editoriais da Caros Amigos.
01 de julho de 2009 - Por Guilherme Scalzilli
http://carosamigos.terra.com.br/
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Agora jornalismo é para quem quiser, graças a Deus
Ok, sou mais um a escrever sobre o fim da exigência do diploma para jornalistas. Relutei em fazer este artigo, mas a indignação dos profissionais me toca. Estão putíssimos, é fato. Meus alunos, preocupados. Eu adorei. Agora, jornalismo é para quem quer fazer jornalismo, não para quem teve a chance econômica de adquirir o diploma que permite exercer a profissão.
Sem dúvida, as razões de Gilmar Mendes e seus pares são equivocadas – eles pensam que o jornalismo não pode prejudicar a sociedade, opinião realmente inacreditável. Contudo, assusto igualmente com os argumentos dos jornalistas, especialmente um: o diploma garante, no mínimo subsidia, a qualidade do exercício profissional. Será preciso lembrar quantos casos para demonstrar o contrário? Escola Base? A edição do debate Lula-Collor? A sanha de abutres na morte de Isabella Nardoni? Ou o assassinato de “garota Eloá”, promovido por diplomados?
Aliás, menos: é só ler jornais, revistas; acompanhar rádio e televisão; ler os famigerados releases das assessorias de imprensa. Em geral, o jornalismo praticado no Brasil é tecnicamente medíocre, a repetição de si mesmo, quem viu um viu todos. Não falo de ética, compromisso social, não sonho tanto. Penso na proclamação do textozinho padrão, o verbo “disse” após a citação, a malandragem da isenção, da imparcialidade, a incapacidade narrativa, a capacidade de aliciar sem ser sexy. O jornalismo brasileiro ainda não decidiu se pronuncia “risco de vida” ou “risco de morte” e chama o PCC de “quadrilha que age dentro e fora dos presídios”, evidenciando-os com a expressão pomposa que pretendia ocultá-los.
Os jornalistas também esperneiam pela possibilidade de perderem conquistas históricas. Ora, por séculos existimos sem diploma, coisa que imperou no Brasil por somente 40 anos. Não estou negando os nacos arrancados a duras penas das montanhas de dinheiro desse bando de Tio Patinhas, empresários da comunicação. Porém grandes conquistas dos trabalhadores em jornalismo são anteriores à ditadura e à exigência do diploma, tipo a instituição do primeiro piso salarial e da jornada de cinco horas, resultado da greve de 1961, organizada pelo sindicato dos jornalistas de São Paulo - mas quando foi mesmo a última greve dos jornalistas, a mobilização que deu notícia?
Fico me perguntando sobre a nossa situação. Pesquisas demonstram que a profissão figura entre as mais insalubres e, após quarenta anos da “categoria organizada” no Brasil, somos explorados ao extremo, recebemos miséria, trabalhamos pra cacete.
Sabe qual o salário de um jornalista na capital paulista? O piso é de R$ 1.738,25 para quem trabalha cinco horas (duvido que exista um) em jornal ou revista. No interior, rádios e televisões pagam R$ 861,85. Imagino que vários cozinheiros ganhem melhor.
Sobre os presumíveis direitos dos jornalistas, risíveis. Inúmeras redações funcionam com legiões de diplomados “contratados” temporariamente. A Editora Abril, a maior do ramo, ajusta freelancers por exatos dois meses e 29 dias, para não caracterizar vínculo empregatício aos três meses. Surgiu “no meio jornalístico” a expressão de todo escrota: “frila-fixo”. Designa o jornalista temporário que trabalha direto e reto na mesma empresa, às vezes anos, sem nenhum direito.
Para os que defendem seus canudos, duas perguntas: por que vocês aceitaram e aceitam ter aulas, talvez a maioria delas, com professores que não são nem nunca foram jornalistas, inclusive em disciplinas específicas? Não seria mais, digamos assim, lógico, receber formação de gente da área, já que, como diz a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), o jornalismo é “uma atividade profissional especializada, que exige sólidos conhecimentos teóricos e técnicos, além de formação humana e ética”?
Há ainda o argumento da “contratação de qualquer um” pelas empresas de comunicação. Percorri os telejornais e desde a decisão do Supremo Tribunal Federal não assisti a cena clássica, filmada do helicóptero, a fila de candidatos a emprego dobrando a esquina, hordas de bárbaros aspirantes ao jornalismo prestes a invadir as redações, suas pastinhas nervosas no sovaco, o currículo dentro.
Não haverá “invasão”, palavra que amestrados diplomados usam sempre para denegrir a legítima e última solução da gente mais explorada deste país. Amestrados: são conhecidos “no meio jornalístico” pela acrobática alcunha de “focas”. Com o fim da reserva de mercado, lo siento, os penetras com vocação e preparo, sim, concorrerão com nosotros.
Dando aulas em cursinhos populares, inclusive dentro da Universidade de São Paulo (USP), cansei de ouvir lamentações de jovens pobres que sonhavam um dia ser jornalistas, mas não podiam, não poderiam nunca concorrer à vaga na universidade pública, nem financiar a particular. Treta, né? Quanto vale um sonho impedido?
Por fim, relaxem, os cursos de jornalismo sobreviverão, e nem sei se precisarão justificar sua existência. Em geral eles prestam enorme serviço aos patrões formatando o futuro profissional, aulinhas de lide durante meses, exercícios práticos que achatam a criatividade, a sagacidade, o tesão dos alunos com asneiras do tipo “não use adjetivo”, “seja objetivo”, “seja imparcial”. Não duvido nada que permaneçam as picaretagens típicas de sala de aula, aqueles mestres que vivem de um difuso, duvidoso e remoto passado profissional, ou os chatos capazes de criar esta impossibilidade ambiental: o clima de marasmo tenso.
Continuidades à parte, torço agora pelo próximo passo evolutivo: a extinção da obrigatoriedade do diploma de Direito. É praticamente impossível, eu sei, inclusive a Ordem dos Advogados do Brasil apóia a exigência para jornalismo, imagina se mexerão no deles. Mas não custa nada sonhar com o dia em que velhinhos não precisarão mais recorrer a um advogado para pedir revisão de aposentadoria, por exemplo.
Marcos Zibordi é jornalista.
As opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não estão necessariamente de acordo com os parâmetros editoriais da Caros Amigos.
24 de junho de 2009 - Por Marcos Zibordi
http://carosamigos.terra.com.br/
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DIPLOMA DE JORNALISTA: O BURACO É MAIS EMBAIXO
Por Wagner Nabuco
“...sambista não tem valor nessa terra de doutor e seu doutor o meu pai tinha razão”, canta Paulinho da Viola, no samba intitulado “14 anos”. Acrescento ao sambistas sem valor os pedreiros, carpinteiros, maquinistas, estivadores, lixeiros, lavradores, camponeses, cortadores de cana, peão de fazenda e de obra, barrageiros, bóias frias, ascensoristas, cobradores, motoristas, carregadores, domésticas, faxineiras e pescadores. A lista é imensa. Esses milhões, a ninguenzada, como dizia o saudoso Darcy Ribeiro, que construíram e constroem o Brasil, têm um traço em comum: exercem profissões de trabalho manual. E é aqui que a cousa pega. Nesse nosso país de doutores, trabalho manual, braçal, é quase indigno. Vale pouco e ganha pouco, herança terrível de 400 anos de escravidão, que pesa sobre nossos ombros.
Vejam que exemplo histórico: José Thomaz Nabuco, filho do intelectual e abolicionista Joaquim Nabuco, no livro “Um médico do Brasil Colônia”, editora Nova Fronteira, 1986, às tantas narra que nosso antepassado comum, Manoel Fernandez Nabuco, chegado à Bahia em 1763, vindo da Vila de Escalhão, Portugal, era médico, naquela época chamado cirurgião, e para ter seu diploma reconhecido pelo cirurgião mor da corte e a licença de “el rei” para exercer sua profissão precisou provar que seus pais e avós paternos e maternos viviam de “suas fazendas”, ou seja: das suas rendas, o que significava não terem exercido trabalhos manuais ou braçais.
Que carga pesada herdamos. Para limpar essa marca ignóbil, que vem de muito longe, ter um diploma universitário é uma das formas mais buscadas e aceitas. Então dá-lhe abertura de faculdades de fachada, arapucas pra tomar dinheiro basicamente dos filhos dessa “ninguenzada” que listei antes. O cidadão, a cidadã, vai continuar feirante, mecânico, manicure, vendedora, auxiliar administrativo, mas poderá, com orgulho, dizer “eu tenho um diploma da faculdade”, ou melhor e mais bonito, “eu sou doutor”.
Todos os bacharéis e licenciados formados no ensino superior são doutores sem ter feito mestrado e muito menos doutorado. São os advogados, médicos, dentistas, engenheiros, procuradores, juízes, deputados... até os delegados de polícia. Os bacharéis que são doutores.
Como titulei, o buraco é mais embaixo. O que precisamos, de fato, é tratar dignamente, principalmente remunerar dignamente todo esse povo, esses milhões que fazem nosso país. Se assim fizéssemos, não haveria essa pressão violenta para conseguir o diploma universitário. Uma boa formação, um bom ensino de segundo grau, um bom salário bastariam para uma vida digna e cidadã.
A profissão de jornalista é muito importante, fundamental mesmo para se construir sociedades democráticas, plurais, mais justas e igualitárias. Seu reconhecimento e regulamentação não deve se limitar à obrigatoriedade do diploma universitário. Deve ser bem remunerada, protegida nos seus direitos e benefícios e admirada pela qualidade da sua produção, independência, senso crítico e ético e não apenas por um diploma que, no mais das vezes, veio de faculdades nascidas para aplacar a mancha horrenda de não sermos doutores.
Com essa visão, me pergunto por que precisamos de advogados, que obrigatoriamente precisam de diplomas de faculdades de direito, geralmente de baixíssima qualidade. Deveríamos também poder defender nossos direitos de cidadãos frente a qualquer arbitrariedade, seja da esfera pública ou da privada, com ou sem advogados, mas sim protegidos por uma vivência democrática, a constituição federal e um conjunto de leis conhecidas e respeitadas. Assim fosse e esse imenso cartório, essa reservona de mercado seria menor e menos nociva. Nada contra os advogados, penso que isso vale para muitas outras profissões que poderão ser exercidas sem a obrigatoriedade do diploma universitário específico. Claro que a sofisticação e diversidade das atividades econômicas exigem formação especializada, inclusive bons advogados. Mas insisto: não é apenas a obrigatoriedade do diploma que a possibilita.
Essas reservonas não interessam aos jornalistas, às suas lutas e reconhecimento. Penso que eles precisam trazer para esse nobre ofício um número cada vez maior de gentes com talento, com ou sem o diploma, inclusive os milhares de jovens que hoje lutam para dar voz à suas comunidades através de rádios comunitárias, jornais, revistas, blogs e outros variados meios por todo esse nosso Brasil.
Wagner Nabuco é historiador, diretor-geral da Caros Amigos, sem diploma de administrador de empresas.
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23 de junho de 2009
As linhas tortas do diploma de jornalismo
O Supremo Tribunal Federal decidiu que o exercício profissional do jornalismo não é mais exclusividade dos diplomados nos cursos de Comunicação Social – Jornalismo. E agora? Agora é preciso que se coloque a decisão e seus efeitos nos seus devidos lugares. Por Cristina Charão
A tese que sustenta a decisão do Supremo, de que a regulamentação da profissão de jornalista tal como estava colidia com o conceito de liberdade de expressão e com os tratados internacionais a este respeito, é lógica. Deixemos por um instante de pensar no cenário das grandes redações de poderosos grupos de mídia e visualizemos a seguinte situação: na fictícia cidade de Cacimbinhas de Cima da Serra, a associação de moradores se dá conta que a localidade não conta com nenhum veículo de comunicação que produza noticiário de acordo com as reais necessidades da população local. Assim sendo, promovem uma quermesse, reúnem o dinheiro necessário e passam a produzir um jornal, folha A4, frente e verso. Mas não há entre os associados ou em toda a cidade nenhum jornalista diplomado. A letra fria da lei que regulamentava a profissão de jornalista diria que todos os três moradores de Cacimbinhas de Cima da Serra que semanalmente escrevem para o jornal estariam exercendo ilegalmente a profissão e a associação de moradores seria multada por isso. Multa esta que, para ser paga, exigiria gastar os últimos recursos da quermesse e, assim, adeus à Folha de Cacimbinhas.
Pena é saber que não foi necessariamente esta a situação imaginada pelos ministros do STF quando proclamaram seus votos a favor da não-obrigatoriedade. A pressão dos grupos de mídia nacionais, cujo jornalismo é a grande máquina de produção da dita “opinião pública”, foi fundamental para a derrubada da regulamentação da profissão de jornalista. O velho ditado do escrever certo por linhas tortas se aplica à questão e impõe a tarefa de percorrer estas vias tortuosas se quisermos que a história que segue tenha como pauta o direito à comunicação.
Representantes da Associação Nacional de Jornais desfiaram argumentos a favor da liberdade de expressão quase nos fazendo acreditar que, agora sim, dona Maria terá sua opinião sobre as cotas nas universidades publicada na Folha de S. Paulo e seu Zé poderá se postar na portaria da Rede Globo com um cartaz “Filma eu, William Bonner” e, pronto, estará no Jornal Nacional. É preciso, portanto, que fique claro: a decisão do STF não muda a lógica com que os grandes grupos produzem seu jornalismo. Poderão, talvez, mudar algumas peças nas redações. Poderão economizar, num futuro próximo, com a contratação mais precária de funcionários, caso o sindicalismo insista na tática do avestruz-bacharel, enfiando a cabeça em uma pilha de diplomas, e não enfrente – finalmente! – o desafio de criar uma nova regulamentação profissional que proteja os trabalhadores e não a máquina da burocracia universitário-sindical.
A decisão do STF só surtirá efeitos democratizantes se for acompanhada de dois tipos de medidas. É preciso qualificar os cursos de Comunicação para que sejam capazes de dar uma perspectiva mais crítica ao exercício do jornalismo, seja pela sua produção acadêmica, seja pela formação de quadros profissionais que se imponham nas redações pela sua capacidade diferenciada. E é preciso, especialmente, medidas que imponham uma nova lógica ao sistema de comunicações e permitam às Folhas de Cacimbinhas, agora livres do impeditivo legalista do regulamento profissional, existirem de fato. A certeza arrogante de que estas medidas jamais serão tomadas é que faz com que os empresários da comunicação defendam a decisão, afinal, democratizante do STF.
Fatos que justifiquem a arrogância do empresariado não faltam. Para ficar apenas nos exemplos do Poder Judiciário, o próprio STF ainda não julgou Ação de Inconstitucionalidade contra o decreto que criou o Sistema Brasileiro de TV Digital, questionado especialmente por dar – sem observar os trâmites constitucionais – mais espaço para transmissão de sinais aos atuais concessionários, diminuindo também a possibilidade da entrada de novos atores no cenário da TV brasileira. Tampouco a Justiça tem sido célere em julgar casos de violações dos direitos humanos por diferentes mídias ou aqueles que questionam diretamente a concentração da propriedade de veículos de comunicação, como o processo contra o Grupo RBS em Santa Catarina.
O trabalho dos que defendem a não-obrigatoriedade do diploma específico para o exercício profissional do jornalismo sem a hipocrisia dos empresários começa agora.
Cristina Charão é jornalista
As opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não estão necessariamente de acordo com os parâmetros editoriais da Caros Amigos.
Originalmente postado no site Observatório do Direito à Comunicação
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18 de junho de 2009
Fim do diploma para Jornalista
STF atende ao pedido das grandes empresas
Por Hamilton Octavio de Souza
O Supremo Tribunal Federal decidiu retirar da regulamentação da profissão de JORNALISTA a exigência de diploma específico de curso superior de JORNALISMO. Essa exigência existe desde a regulamentação de 1969. Passou a vigorar em 1971. Nunca foi limitação para a liberdade de expressão e nunca impediu ninguém de colaborar e participar das atividades jornalísticas e dos meios de comunicação. Os jornais e as revistas estão cheios de articulistas não-jornalistas. É só ver os colaboradores da página 2 da Folha de S. Paulo: Antonio Ermírio de Moraes, Delfim Netto, Emílio Odebrecht, Marina Silva, Cesar Maia etc...
A exigência tem servido para definir o perfil da categoria profissional, quem vive do trabalho jornalístico, quem tem no jornalismo a sua atividade principal, quem tem vínculo empregatício como jornalistas. Para essa categoria, a exigência do diploma foi uma conquista importante - na medida em que estabeleceu área específica de estudo, reflexão e pesquisa, aperfeiçoamento técnico e comprometimento ético e político. Contribuiu para elevar o nível intelectual e cultural da categoria - de maneira geral, apesar dos cursos ruins e picaretas (como em todas as áreas do ensino superior público e privado).
Há anos que as empresas jornalísticas fazem campanha contra a exigência do diploma, basicamente pelos seguintes motivos: 1) Ficam liberadas para contratar quem bem entenderem no grande exército de reserva (desemprego de mais de 30% entre os jovens de 18 e 25 anos); 2) Aumentam a pressão para rebaixar ainda mais os salários, sem o menor respeito aos pisos salariais conquistados pela categoria profissional; 3) Podem ampliar o esquema de super-exploração dos trabalhadores do jornalismo (sem vínculo, PJ, frila fixo, produção para vários veículos, não pagamento de direitos autorais etc), enfim, podem fazer no setor da comunicação o que fazem com a terceirização da mão de obra nos call center da vida; 4) Podem aumentar o controle ideológico de seus trabalhadores jornalistas sem conflitos éticos e compromissos sociais (os jornalistas, queiram ou não, têm uma noção mais próxima do jornalismo como serviço de interesse público - do que interesse privado dos grupos econômicos).
Portanto, a derrubada do diploma é antes de mais nada uma vitória do capital. O que fazer?
O jornalismo brasileiro tem mais de 200 anos de história. A categoria profissional se reconhece como tal há mais de 80 anos. O sindicato dos jornalistas de São Paulo foi fundado em 1937. Antes da exigência do diploma, a categoria já havia conquistado a jornada de trabalho (5 horas + 2 horas extras = 7 horas), o piso salarial (que já foi de seis salários mínimos) e outros benefícios profissionais. Isso foi feito com luta. A defesa das conquistas da categoria depende exclusivamente da mobilização, organização e combatividade da própria categoria. Nada mais do que isso.
A exigência do diploma durou 40 anos. Contribuiu para consolidar o profissionalismo da categoria, mas também foi um grande estímulo ao aparecimento dos cursos de picaretagem - as verdadeiras arapucas do ensino superior - que se aproveitaram dessa "reserva de mercado de trabalho" para ganhar dinheiro (lucro) e inundar a profissão de pessoas despreparadas e não comprometidas com o papel transformador do jornalismo.
A não exigência do diploma coloca um novo desafio para os cursos de Jornalismo: conquistar o seu próprio espaço na sociedade e a sua própria inserção no mercado de trabalho profissional. As boas escolas, os bons cursos continuarão como referência do JORNALISMO e continuarão formando bons jornalistas para a sociedade brasileira.
Ainda é preciso ver qual será a exigência para o registro da profissão, se haverá ou não registro profissional. Mas, de qualquer maneira, mais do que nunca, agora, os cursos de jornalismo precisam deixar claro a que vieram, quais são as suas virtudes na formação de jornalistas, quais são as suas visões de mundo e do jornalismo que a sociedade brasileira realmente necessita.
O debate está aberto. Não dá para fugir dele...
Hamilton Octavio de Souza.
Jornalista e Professor da PUC-SP.
As opiniões expressas aqui são de exclusiva responsabilidade do autor e não estão necessariamente de acordo com os parâmetros editoriais da Caros Amigos.
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